A noite em que os números discordaram
Entre 24 e 29 de agosto de 2026, seis pré-candidatos sentaram na mesma cadeira, no mesmo estúdio, diante do mesmo entrevistador. Mesmo palco, mesma duração, mesmo alcance nacional. Se a televisão ainda decidisse sozinha quem domina o debate público, as seis noites deveriam produzir seis resultados parecidos. Produziram seis resultados completamente diferentes.
A série de sabatinas presidenciais da Globo terminou com Lula no topo da audiência, com 25,2 pontos na Grande São Paulo. O petista superou Romeu Zema (24,2), Flávio Bolsonaro (24,1), Ronaldo Caiado (21,7), Renan Santos (19,8) e Augusto Cury (19,4). Na noite de 27 de agosto, a entrevista de Lula puxou o maior pico de conversa da semana e parecia causa e efeito. Só que Renan Santos, penúltimo em rating, produziu o maior salto proporcional de menções, e Cury, último na TV, não ficou em último na conversa. A audiência explicava o alcance. Não explicava o barulho.
É essa distância que este estudo mede. 18.757 menções coletadas em seis plataformas, atribuídas a seis nomes e a nove temas, para responder uma pergunta simples: se não é a audiência que decide quem ganha a conversa, o que decide?
A resposta exige, antes de tudo, parar de contar menções como se todas pesassem igual.
Como transformar 18.757 menções em uma nota
Volume puro é uma métrica traiçoeira. Um candidato pode aparecer trinta mil vezes em uma crise e nenhuma dessas aparições ajuda a campanha. Por isso a conversa foi reduzida a cinco dimensões, cada uma com um peso.
Volume vale 30% e mede participação na conversa total. Sentimento vale 25% e pondera positivo integral, neutro a 10% e negativo a zero. Engajamento vale 20% e divide reações por menção, separando quem foi citado de quem foi respondido. TV vale 15% e normaliza o IBOPE pelo maior rating da semana. Momentum vale 10% e captura a aceleração entre o começo e o fim do período.
Nenhum desses pesos é lei natural. Eles são uma hipótese editorial sobre o que importa em uma disputa. A melhor forma de testar uma hipótese é quebrá-la.
01 · Anatomia do score
Se você acha que sentimento importa mais que volume, mude o peso e veja a disputa mudar de forma.
Participação do candidato no total de menções
Positivo integral, neutro a 10%, negativo zerado
Reações, likes, comentários e repostagens por menção
Rating IBOPE normalizado pelo maior da semana
Aceleração entre o início e o fim da semana
O que você vê ao mexer nos controles é o ponto central do método: a liderança de Lula resiste a quase qualquer combinação de pesos, porque ela vem de volume e de sustentação. Já as posições intermediárias trocam de lugar com facilidade, o que significa que a diferença entre segundo e quarto lugar é menor do que qualquer ranking sugere.
Com o método na mesa, dá para voltar à pergunta da abertura e testar a suspeita mais óbvia: será que rating de televisão explica esse score?
A audiência entrega alcance, não conversa
O pódio da audiência ficou apertado no topo, com Lula em 25,2, Zema em 24,2 e Flávio Bolsonaro em 24,1 pontos. Zema, segundo maior rating da semana, viu o buzz encolher todos os dias seguintes. Renan Santos, com 19,8, e Cury, com 19,4, fecharam a lista da TV e mesmo assim lideraram em aceleração relativa de conversa. Se a televisão determinasse o debate, esses casos seriam impossíveis.
02 · TV e redes
Rating de TV no eixo horizontal, menções no vertical. Onde está a diagonal?
A leitura é direta: a posição vertical de cada ponto não é prevista pela posição horizontal. A televisão entrega o convite, ela não entrega a festa. Quem chega ao estúdio sem um assunto capaz de circular sozinho sai de lá com alcance e sem conversa.
Se a audiência não explica o tamanho da conversa, resta olhar o outro eixo que toda campanha ignora: quanto tempo essa conversa dura.
Cada um teve sua noite, poucos tiveram sua semana
Todos os seis dispararam no dia exato da própria entrevista. Isso era esperado. O que separa os candidatos não é o pico, é o que acontece 48 horas depois dele.
03 · Seis noites
Arraste a linha do tempo: quem continua existindo depois do próprio pico?
Lula é o único que mantém presença relevante nos dias em que não é o assunto oficial. Flávio Bolsonaro concentra quase tudo no próprio dia. Zema, Caiado e Renan produzem picos isolados que somem no dia seguinte, e Cury fecha a semana em queda. Pico é evento, sustentação é posicionamento, e só o segundo se acumula.
Sustentação, porém, não acontece no vácuo. Ela depende do que as pessoas produzem com aquilo que viram, e é aí que a semana muda de escala.
A noite de cada um, contada pelo conteúdo
Menção é reação, conteúdo é trabalho. Para entender quem realmente mobilizou produção, cruzamos as publicações de maior desempenho no Instagram e no Facebook durante a semana das sabatinas. Aqui não contam comentários soltos, e sim posts que alguém decidiu criar, editar e publicar sobre cada candidato.
Interações geradas
5.249.941
nas 244 publicações de maior desempenho da semana
Campeão de conteúdo
FLÁVIO
3.902.723 interações em 112 publicações
Maior eficiência
25,1%
taxa média de interação por post de CURY
Noite mais explosiva
29 de ago.
1.428.877 interações concentradas em um único dia
Quem gerou mais conteúdo
A noite da sabatina explica só uma parte do conteúdo. O que separa quem virou pauta de quem virou assunto é o volume produzido nos dias em que o candidato não estava no ar.
Mais amado
CURY
12,5%
maior saldo de conteúdo elogioso entre as publicações campeãs
W7 PODCAST | ELEIÇÕES 2026 EXCLUSIVO “O Maranhão é uma poesia.” Em entrevista exclusiva ao W7 Podcast, o candidato à Presidência da Repúbli
Mais odiado
RENAN
21,4%
maior fatia de conteúdo crítico, de ataque e de deboche
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Rei do recorte
FLÁVIO
1,8%
maior proporção de humor, zoeira e recorte viral no material analisado
Você sabia que mais de DUAS DÉCADAS separam a primeira vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro de sua primeira disputa pela Presidência da Re
Efeito eco
FLÁVIO
102 posts
volume de conteúdo produzido nos dias que não eram a própria sabatina
Você sabia que mais de DUAS DÉCADAS separam a primeira vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro de sua primeira disputa pela Presidência da Re
Fenômeno de nicho
CURY
25,10%
poucas publicações, mas a maior taxa de interação por post da amostra
W7 PODCAST | ELEIÇÕES 2026 EXCLUSIVO “O Maranhão é uma poesia.” Em entrevista exclusiva ao W7 Podcast, o candidato à Presidência da Repúbli
Alcance sem lastro
CAIADO
6.685 interações
audiência alta na TV e pouca produção de conteúdo depois do programa
Gilberto Kassab, líder do PSD, rebateu críticas sobre o pragmatismo político do partido e negou qualquer aproximação com Lula, PT ou bolsona
Os conteúdos que sustentam os números
O retrato é assimétrico. Um candidato transforma a própria noite em usina de conteúdo e continua rendendo nos dias seguintes, outro aparece pouco mas com altíssima taxa de interação por post, e há quem tenha tido audiência de TV alta sem quase nenhum eco criativo depois do programa. É a diferença entre ser visto e ser reproduzido.
Esse material também revela onde a conversa se instala, porque cada rede premia um tipo diferente de recorte.
A conversa não acontece em um lugar só
Quase metade de tudo que foi dito, 48,5% do total, nasceu na plataforma onde vivem jornalistas, assessores, ativistas e analistas. Não é o maior público do país, é o público que escreve para os outros públicos.
04 · Onde se fala
Seis plataformas, seis gramáticas diferentes.
O que a distribuição mostra é que uma mensagem única, replicada igual em todos os canais, funciona bem em no máximo um deles e desaparece nos outros cinco. Cada plataforma tem uma velocidade, um formato e um tipo de prova que aceita.
Sabendo onde se fala, falta a variável que quase todo relatório interpreta errado: como se fala.
O neutro que quase ninguém sabe ler
A expectativa era encontrar polarização. Entre 91% e 98% das menções de cada candidato foram classificadas como neutras. Isso não é indiferença nem falta de opinião do eleitorado, é a assinatura de um outro comportamento: descrever, citar, recortar e circular antes de julgar.
05 · O paradoxo do neutro
Ser mencionado coloca você na conversa. Ser mencionado com novidade te dá espaço nela.
A consequência prática é contraintuitiva. Em uma base majoritariamente neutra, a pequena fatia de menções carregadas de emoção decide a percepção, porque é ela que viraliza. Monitorar apenas o saldo entre positivo e negativo esconde exatamente o movimento que importa.
Volume, tempo, lugar e tom já estão medidos. Falta juntá-los em um retrato único de cada candidato.
Ninguém lidera em todos os eixos
Sobrepostos, os cinco eixos revelam formatos, não notas. Cada candidato desenha um polígono diferente, e o formato conta uma estratégia.
06 · Perfis
Cinco eixos, comparação direta.
Há quem tenha volume sem engajamento, quem tenha engajamento sem sustentação e quem tenha audiência sem nenhum dos dois. Nenhum polígono é cheio, e é isso que transforma o estudo em direcional: cada perfil aponta um buraco específico a corrigir.
O que fazer com isso na segunda-feira
Para um gabinete, o estudo se traduz em quatro decisões. Acompanhar mudança de sentimento em tempo real, e não em relatório mensal. Produzir conteúdo por gramática de plataforma, e não uma peça só distribuída em todas. Não confundir audiência com influência ao avaliar mídia tradicional. Identificar cedo os perfis emergentes que estão pautando a conversa antes que eles fiquem caros.
Para uma assessoria, o ganho é de tempo. Entender o ciclo de vida de uma mensagem, da entrevista ao recorte, do recorte à thread, da thread ao vídeo e do vídeo ao grupo de WhatsApp, permite antecipar o rebote antes de ele virar crise e medir o retorno real do investimento em mídia. Quem espera o relatório trimestral está disputando uma eleição trimestral.
Nada disso depende de um contrato caro. Depende de repetir o procedimento abaixo.
Como replicar, e o que este estudo não prova
A coleta partiu de uma consulta única, aplicada às seis plataformas no mesmo intervalo:
(("Romeu Zema" OR "zema") OR ("Ronaldo Caiado" OR "caiado")
OR ("Renan Santos" OR "renan") OR ("Lula" OR "Luiz Inácio")
OR ("Flávio Bolsonaro" OR "flavio") OR ("Augusto Cury" OR "cury"))
AND ("Jornal Nacional" OR "JN" OR "entrevista" OR "debate" OR "tv globo")
AND NOT (fake OR bot OR teste OR spam)
Período: 24 a 29 de agosto de 2026
Plataformas: Twitter, YouTube, notícias, TikTok, Facebook, ThreadsEm seguida: calcule o volume por candidato, extraia o sentimento por IA revisando 10% das classificações manualmente, some o engajamento por plataforma, normalize tudo para 100% e aplique os pesos. Com dados em mãos, o painel fica pronto em menos de 48 horas.
Os limites precisam ficar explícitos. São seis dias, seis nomes e um único evento gerador, o que descreve um momento e não uma tendência de campanha. O sentimento é classificado por modelo com revisão amostral, então erros de ironia e de contexto regional existem. E conversa em rede não é intenção de voto: mede quem domina o debate, não quem vence a urna.
Com essas ressalvas, a conclusão se sustenta. A televisão continua entregando o maior alcance simultâneo do país, e é ela que abre a pauta. Mas quem transforma alcance em conversa, e conversa em permanência, é a rede. Medir só um dos dois lados é enxergar metade da eleição.








































